Eh Toiro! Toiro!!!

Li com um bom sorriso este teu último desabafo acerca de touradas e
insultos. Gostava de te apoiar tanto nos insultos como nas touradas e de
certo modo não consigo. Os insultos nas redes sociais são tão
transitórios quanto é definitivo o botão de “delete”. Pode ser chocante e
um acto de censura que a nossa entranhada educação de “liberdade de
expressão” o não permita, mas tenho de te lembrar um comentário do Rui
Morrison, faz muito tempo, meio jocoso meio sério quando escutava um
programa na RGT... “Eu sou contra a censura mas que devia haver, devia!”
ao olhar com desespero para o que se passava dentro do estúdio grande.
Há liberdade de expressão e há o vale tudo e não têm de modo nenhum a
mesma taxa de câmbio. Penso que escrever e apontar para estes
“contratempos” nas redes sociais só alertam e incitam ainda mais à
polémica, à ira como dizes e também ao desperdício de largura de banda e
espaço nos servidores.
Somos livres de concordar com o que quer que
seja mas a dificuldade reside onde traçar a linha de “non passarán!”. E é
essa que nos define. Sei que ocupas uma figura de relevo e tens de
cuidar a tua percepção e o teu público. Mas nem todos são o teu público,
nem o deveriam ser. Quanto a touradas, caímos outra vez na definição
ou especulação do “sofrimento” dos animais, quando tentamos
humanizá-los a um ponto em que pomos a Humanidade em segundo plano. Espectáculos
de morte e sofrimento tem havido muitos, desde sempre. Autos da fé,
guilhotinas, apedrejamentos, decapitações, eletrocuções, fuzilamentos,
enforcamentos, a lista tem tantos itens quanto a imaginação o permite.
Há
outras mortes que passam despercebidas, carruagens em linhas a caminho
de Auschwitz e Treblinka, caminhadas no Gulag, bombas radioactivas,
napalm, mortes sem nome em vários países desde a Bósnia até à Síria,
passando pelo Ruanda, Vietnam, Camboja, Sudão... se reparaste todas as
mortes a que me refiro, espetaculares ou não, são de humanos tal como
tu e eu. Touradas e outros espectáculos que envolvem animais, como
circos, rodeos, oceanários e zoos, são sempre do ponto de vista da
Humanidade, bárbaros, degradantes e dependendo onde traças a tua linha,
indefensáveis.
Alguma vez olhaste para um camião carregado de
bezerros para um matadouro? Reparaste no olhar dos animais? Eles sabem
de certo modo o seu destino, tal como sabiam os Humanos que entravam
debaixo do pórtico com as palavras “Arbeit Macht Frei”. E fico cheio de
tristeza sempre que passo por um, porque não consigo dissociar os dois
eventos... o que não me impede de saborear um bom bife ou hamburguer.
Pelo que me toca em relação a touradas aqui fica o meu argumento... até
hoje morreram muito mais toureiros do que empregados de matadouro! e nunca, nunca vi um bezerro escapar de tal lugar.
Beijo
Fica também aqui um pouco de Almeida Garrett "As Viagens na Minha Terra" para quem ainda se lembra
— «Mas nós, pé no barco pé na terra, tão depressa estamos a sachar o milho na charneca, como vimos por aí abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar na areia por não haver água... mas sempre labutando pela vida.»
— «A força é que se fala» tornou o campino, para estabelecer a questão em terreno que lhe convinha: «A força é que se fala: um homem do campo que se deita ali à cernelha de um toiro que uma companhia inteira de varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores, pelo rabo!...»
E reforçou o argumento com uma gargalhada triunfante, que achou eco nos interessados circunstantes que já se tinham apinhado a ouvir os debates.
Os Ílhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciência da sua superioridade, mas acanhados pela algazarra.
Parecia a esquerda de um parlamento quando vê sumir-se, no burburinho acintoso das turbas ministeriais, as melhores frases e as mais fortes razões dos seus oradores. Mas o orador ílhavo não era homem de se dar assim por derrotado.
Olhou para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto expressivo, e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus antagonistas:
— «Então agora como é de força, quero eu saber, e estes senhores que digam, qual é que tem mais força, se é um toiro ou se é o mar.»
— «Essa agora!...»
— «Queríamos saber.»
— «É o mar.»
«Pois nós que brigamos com o mar, oito e dez dias a fio numa tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, qual é que tem mais força?»
Os campinos ficaram cabisbaixos; o público imparcial aplaudiu por esta vez a oposição, e o Vouga triunfou do Tejo.
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